Aprendendo com os próprios erros

Neste momento, a coisa mais importante a fazer é usar de toda a sinceridade, de toda honestidade, porque quero que minha carta não apenas relate a minha história, mas principalmente, que sirva também de inspiração para que as pessoas pensem sobre tudo o que vivi, sem ter que passar pelo que passei para encontrar um caminho para felicidade.  

Quando comecei a trabalhar naquele escritório de contabilidade, eu vinha de um momento bastante delicado da minha vida... Eu acabava de me separar e numa situação terrível para mim, uma vez que saí daquela relação humilhada. Meu marido havia descoberto que eu o traía! Momentos assim são sempre delicados, já que do meu ponto de vista, eu até que achava que tinha certa razão para agir assim. Nunca tive uma vida sexual feliz com meu marido! Para ser sincera, não conheci prazer sexual com ele e eu sabia bem do que estava falando, já que no meu namoro anterior havia tido sexo e fui totalmente  feliz e realizada! Alguém me perguntará: Ora, então por que você não ficou com o ex-namorado? Sei que a resposta não é tão simples assim, mas o que posso dizer é que a vida a dois não é apenas sexo. Há outros fatores que são ainda mais importantes e nestes outros aspectos, meu ex-namorado não era bem o que buscava, por isso, não fiquei com ele, ou, talvez a resposta mais honesta seja, por isso, não ficamos juntos...  

Já o homem com quem eu havia me casado era uma pessoa bastante diferente do meu ex. Tinha qualidades que uma mulher sempre busca num homem, sabia ser companheiro, amigo, protetor. Sabia me dar atenção.  Eu sentia que por ele possuir todas estas qualidades ficaríamos juntos para sempre. Não casei para me enganar e nem pensando enganá-lo, me casei porque sentia que poderíamos nos dar muito bem e que nossa união seria pra valer. A questão sexual eu já conhecia antes do casamento.  

Também com meu marido, antes de nos casarmos fizemos sexo. E senti desde a primeira vez que não havia sido tudo aquilo. Pelo menos ficou bem distante do prazer que sentia com o outro namorado, mas se querem saber, eu tinha 22 anos e tinha uma convicção, para escolher me casar com um homem que era bom de sexo e outro que era bom companheiro, amigo, protetor! Não titubeei ficar com o segundo. E não sei o que pensam as outras mulheres que estão lendo minha carta, mas se hoje eu tivesse que escolher, faria exatamente a mesma escolha...  

Mas depois do casamento a questão sexual começou a ter um peso. Não aquele peso capaz de fazer deixar o meu marido, mas passou a ter um outro tipo de peso. O da falta. Meu marido era um sujeito bem tranqüilo no quesito desejo sexual, no nosso recém casamento, bastava duas vezes na semana, mas depois que engravidei e tive uma menina, ele ficou ainda mais tranqüilo com relação ao sexo... Uma vez por semana, uma vez a cada quinze dias... Mas não estou falando apenas da quantidade, mas também da qualidade. 
A mulher, ou, pelo menos eu enquanto mulher levo certo tempo, até o meu êxtase e normalmente meu marido não me dava este tempo. Era como se ele não completasse a viagem e ficasse pelo meio do caminho... Nestas horas me zangava, mas preferia calar-me. Talvez este tenha sido meu principal erro, porque este ficar no meio do caminho foi se tornando uma bola de neve e ao invés de explodir em raiva e abrir o jogo com ele, preferi um outro caminho: “o da fantasia”. Não raro me trancava em nosso quarto e começava a fantasiar. Nas fantasias usava como personagem meu ex-namorado.  

Mesmo nas minhas fantasias com o ex, nós não ficávamos juntos. Eram aqueles encontros fortuitos e as escondidas, onde ele com toda volúpia me possuía e depois do prazer, simplesmente dizíamos adeus um para outro e voltava para casa para ser feliz com meu marido e minha filha. Esse ritual de fantasia foi crescendo tanto, mas tanto, que um dia me peguei ligando para o meu ex-namorado. Ele na condição de homem garanhão foi bastante receptivo e sabia muito bem o que eu queria e estava disposto a me dar... Foram três ou quatro conversas ao telefone e depois um encontro marcado num motel e o que antes era apenas fantasia passou a ser realidade.  

Era maravilhoso no momento em que acontecia, depois do prazer, eu ficava doida pra voltar pra minha casa e ser feliz. Embora, não negue restava sempre um sentimento de culpa. Aí, mora outro problema. O sentimento de culpa. É exatamente este sentimento que nos dá no dia à dia, uma consciência cada vez mais pesada e vai nascendo no coração da mulher uma necessidade de desabafo. 
Vai dando aquela vontade que só quem é mulher sabe sobre o que vou falar. Vontade de falarmos com alguém sobre tudo o que estamos vivendo, na ânsia louca que a outra mulher nos ouça e diga: “não fique assim, não se sinta assim, eu também fiz o mesmo!  

Mas a quem se abrir sobre tal assunto? É tudo tão delicado que temos que confiar com quem conversar.  

Cinira era a moça que trabalhava em minha casa. Sabia que ela era casada, mas que sempre atendia uns telefonemas suspeitos em seu celular. A escolhi para confidente. E quando me abri, ouvi o que esperava: “Larga de ser boba, eu também estou na mesma situação...” Rimos e ela me contou sobre o que se passava com ela, me incentivando desta forma a falar detalhes da minha vida...  

Não passaram nem cinco meses depois da nossa conversa, quando Cinira pediu demissão... Dizia apenas que mudaria de atividade para ganhar mais, apertamos a mão uma da outra como quem dissesse sem que houvesse palavras: “Continuaremos amigas e confidentes apesar de tudo!”  

Não foi assim, não me pergunte o motivo, a razão, mas um dia Cinira ligou para o meu marido e contou tudo o que sabia sobre minha traição. Deu nome, até o endereço do motel, onde eu me encontrava às escondidas com meu amante... Meu marido deve ter sofrido muito. Mas friamente contratou um detetive que me fotografou num encontro clandestino. Foi muito humilhante no momento em que ele esfregava aquelas fotos na minha cara... Negar como diante de tanta evidência?  

Envergonhada, eu não conseguia olhar para cara dele, enquanto ele me xingava de nomes horrendos... Quando senti que ele parou de me xingar, quando senti que podia controlar o meu choro, comecei a falar:  

-Deoclécio, sei que não terei perdão de sua parte, posso sentir o cheiro do ódio que você está sentindo neste momento, mas se puder me ouvir, nem que seja por um instante, seria tão importante! 
-Falar o quê Regina, depois de uma canalhice dessas? Dizer que essas fotos são falsas, que é uma mulher parecida com você... Falar o quê, Regina? Ora, além de me fazer corno, quer agora menosprezar também minha inteligência? 
-Não, Deoclécio, não quero menosprezar tua inteligência, esta da foto é real, a traição aconteceu, mas eu não sinto nada por este cara que você vê na foto. Se você me abandonar como sei que irá fazê-lo, não pense que vou ficar com ele... 
-Regina não me interessa com quem você vai ficar, até por que quem é que me garante que ele quer ficar com você, o que ele queria com você era apenas isso e você já deu o que bastava pra ele... 
-Por favor, Deoclécio me ouça um pouco, só um pouco... O que estou querendo dizer é que tudo o que vivi com este cara por mais errado que tenha sido, não foi por deixar de te amar, mas foi pra satisfazer uma vontade da carne e se quer saber, muito me arrependo de ter atendido aos apelos da carne... 
-Agora é tarde pra arrependimentos Regina, não quero mais você morando nesta casa, quero que desocupe a casa ainda esta noite e não quero que você leve nossa filha também...  

Sei que você que lê esta carta deve estar pensando: Ah, comigo não. Eu no seu lugar Regina diria: “Minha filha não, ela vai comigo, quem você pensa que é pra querer ficar também com a minha filha...” 
Não foi o que fiz, estava muito por baixo para ter uma atitude assim, até porque meu marido além de estar com a razão tinha as fotos da minha vergonha e embora não tivesse ameaçado, poderia se quisesse usá-las contra mim...  

Peguei umas peças de roupa e saí... No olho da rua e sem rumo, lembrei-me de minha amiga Fátima que também separada morava sozinha. Fui bater no apartamento dela e ela não me decepcionou. Acolheu-me muito bem. Enquanto ela trabalhava, eu ficava cuidando do apartamento para ela e ela adorava isso, já que sempre fui muito caprichosa na limpeza de uma casa... Liguei no trabalho de meu marido e combinei de visitar nossa filha todos os dias, no momento em que ele não estivesse em casa, ela tinha apenas dois aninhos e sentiria muito a minha falta... Apesar de estar profundamente magoado comigo, ele entendeu a necessidade da criança e permitiu... 
Meu marido tinha uma tia viúva de quem sempre gostou muito e a levou para casa para tomar conta de nossa filha. Achei que ele fez uma ótima escolha, uma vez que tia Filó era uma maizona de toda família... E assim o tempo foi passando. Seis meses depois, minha amiga Fátima me arrumou aquele emprego num escritório de contabilidade e quando eu pisei ali pela primeira vez, eu ainda estava muito mal com tudo o que havia me acontecido.... Ainda era bastante jovem, tinha pouco mais de vinte e cinco anos, mas com certeza aparentava muito mais idade do que na verdade possuía... 
Ainda estava arrasada pelo sentimento de culpa sobre o fim da minha vida familiar. Isso me destruía cada dia mais, minha auto-estima estava muitas casas abaixo de zero...  

Quando os colegas começavam a se despedir no fim do expediente, eu dava um jeito de alongar minha presença um pouco mais por lá, eu não queria voltar pra casa da Fátima, pois, ela sempre voltava por volta de oito horas da noite e eu tinha medo de encarar sozinha aquela solidão. 
Pelo menos ficando no escritório, sempre um telefone tocava pedindo informações, sempre um colega, ou, outro ficava trabalhando em cima de faturamentos das empresas para fechamento da quinzena, do mês e etc. 
Um dia fiquei no meu canto rabiscando uma folha de rascunho, quando comecei a chorar pensando na minha vida e fui surpreendida pela voz do seu Nélson, o dono do escritório... 
-O que você tem Regina, você tem andado tão triste e agora está chorando? 
-Oh, seu Nélson, não é nada 
-Como nada, ninguém chora à toa e depois vamos ser sinceros, você ainda é tão moça e desde o seu primeiro dia no escritório nunca a vi feliz, desculpe a intromissão, mas não quero ser visto por você apenas como patrão, mas também como uma pessoa capaz de te ouvir, uma pessoa sensível o bastante pra saber quando alguém está precisando desabafar...  

Meu Deus, foi a gota d’àgua para desabar num choro sem fim... Seu Nélson ouviu todas as minhas lamúrias e convidou-me para jantarmos... Ele era viúvo, aos 58 anos, eu separada aos 25, por que não? 
Ele me ouviu como um pai ouve uma filha e na verdade tinha idade para isso e talvez tenha sido exatamente o que eu vi nele naquele dia...  

Mas outros dias vieram e um dia seu Nélson veio jantar na casa da Fátima minha amiga e depois que ele foi embora, a Fátima me falou: Regina, eu senti que está rolando um clima entre vocês... 
-Que é isso Fátima, ele tem idade pra ser meu pai... 
Ao que ela respondeu: 
-Talvez seja este o sentimento inicial que una um homem e uma mulher...   

Na noite em que a Regina me disse isso, não consegui dormir direito pensando em tudo... E no dia seguinte, depois do trabalho, falei com o Nélson que eu gostaria de falar com ele... 
Fomos ao restaurante de sempre, mas naquele dia o papo foi bem diferente...Ao final uma confissão de amor por parte dele, que disse que só não havia tocado no assunto por medo de perder até minha amizade. 
Namoramos três meses e a Fátima foi testemunha da nossa felicidade quando passamos a viver juntos... 
Assim estamos há dois anos e hoje sou outra mulher. Penso ainda na importância do sexo, o que com o Nélson tem sido bem legal, mas há outros valores que hoje prezo muito mais e valorizo muito mais. Até minha filhinha veio morar conosco. Meu ex- marido se casou e achou que seria melhor assim...  

Hoje não repetiria os erros do passado, mas uma coisa é certa, foi preciso errar para aprender a construir uma felicidade. 
Você que viveu minha história até aqui, se encontra algum tipo de identidade com tudo o que falei e neste momento esteja atravessando aquele deserto de sofrimento, acalme-se! Preste à atenção em que passo quer dar nesta areia escaldante e creia, você está a caminho de um oásis.

 

 

Até a próxima edição!
Paulinho Boa Pessoa
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